Mateus Rosé: o vinho de garrafa de cantil criado para vender ao Brasil
Em 1942, com a guerra travando o vinho do Porto, um português criou um rosé para exportar a um país que estava fora do conflito
Em 1942, com a guerra travando o vinho do Porto, um português criou um rosé para exportar a um país que estava fora do conflito
O Mateus Rosé nasceu de uma conversa num jantar em Portugal, em 1942, no meio da Segunda Guerra Mundial. Segundo o crítico australiano Huon Hooke, na The Real Review, os convidados falavam da dificuldade de vender vinho do Porto durante o conflito quando alguém sugeriu fazer vinhos de mesa para exportar ao Brasil, país que fala português e, naquele momento, estava fora da guerra. Da ideia nasceu a empresa que deu origem à Sogrape, que ainda produz o vinho.
O responsável foi Fernando Van Zeller Guedes, nascido no Porto em 1903 e morto em 1987, segundo o Diário de Notícias. Rosé era quase desconhecido em Portugal na época, e ele decidiu fazer um vinho levemente doce, por achar que a maioria das pessoas preferia um pouco de açúcar. As uvas eram bastardo, touriga e tinta francisca, do Vale do Douro.
A garrafa achatada e redonda imita os cantis dos soldados da Primeira Guerra Mundial. O formato exigiu moldes especiais, e as primeiras garrafas eram enchidas à mão, com um tubo de borracha ligado ao barril, conta Hooke.
O rótulo mostra o Palácio de Mateus, perto de Vila Real, construído em 1610 e então do conde de Mangualde, que vendia uvas da sua vinha para o vinho. O conde aceitou primeiro receber meio escudo por garrafa pelo uso da imagem, mas dias depois trocou o acordo por um pagamento único. Guedes contaria mais tarde que, quando o Mateus vendia 50 milhões de garrafas por ano, os royalties teriam dado ao conde 25 milhões de escudos em 12 meses.
O vinho vendeu bem em Portugal e no Brasil até o Brasil proibir a importação de vinho durante uma crise econômica. Guedes então mandou duas garrafas a cada embaixada portuguesa e a amigos no exterior: uma era para beber gelada, a outra para dar a alguém que pudesse virar representante da marca naquele país. O plano funcionou, segundo Hooke.
Segundo o Diário de Notícias, a fadista Amália Rodrigues foi embaixadora do vinho, e uma foto famosa mostra Jimi Hendrix bebendo direto da garrafa em forma de cantil. Hoje o Mateus é vendido em mais de 100 países, e a Sogrape é comandada pelo neto do fundador.
Fontes: The Real Review (20/08/2020), Diário de Notícias (01/09/2020).