Carménère: a uva que o Chile cultivou por décadas achando ser Merlot
Trazida de Bordeaux no século 19, a uva só foi identificada em 1994 por um especialista francês e reconhecida no Chile em 1998
Trazida de Bordeaux no século 19, a uva só foi identificada em 1994 por um especialista francês e reconhecida no Chile em 1998
Quem abre um Carménère chileno hoje bebe uma uva que, até pouco mais de 30 anos atrás, os próprios produtores do Chile não sabiam que tinham. A variedade passou décadas plantada ao lado da Merlot e vendida com o nome dela, até que um especialista francês percebeu que parte daquelas videiras era outra coisa.
A Carménère vem de Bordeaux, na França, onde era usada em cortes, sobretudo em Graves e Pessac-Léognan, segundo a Wine Folly. Muito sensível à filoxera, a praga que devastou os vinhedos europeus no século 19, a uva quase desapareceu da região: no replantio, os produtores preferiram Cabernet Sauvignon e Merlot, mais fáceis de cultivar, e a Carménère chegou a ser dada como praticamente extinta.
Antes disso, porém, mudas tinham atravessado o oceano. Segundo a Concha y Toro, a variedade foi levada da França para o Chile em algum momento entre 1840 e 1890. Lá, cresceu misturada à Merlot e passou a ser tratada como se fosse ela.
O engano só foi desfeito em 1994. O ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot, professor em Montpellier e especialista em identificar variedades de uva, visitava uma vinícola no Vale do Maipo a convite de um ex-aluno, que queria lhe mostrar um novo vinhedo de Merlot. Segundo o relato da Concha y Toro, ele estranhou as folhas e as pontas dos ramos e confirmou a suspeita nas flores, que na Carménère têm os estames retorcidos. A Wine Folly acrescenta que as falsas Merlot amadureciam bem mais tarde que as outras e que cerca de metade da Merlot chilena era, na verdade, Carménère.
O primeiro vinho da uva já identificada saiu em 1996, pela Viña Carmen, com o nome Grande Vidure, porque a Carménère ainda não tinha registro. O Ministério da Agricultura do Chile só reconheceu a variedade em 1998.
O traço mais marcante da Carménère são as pirazinas, compostos que dão aromas de pimentão, pimenta-do-reino e eucalipto. A Concha y Toro diz que, muito intensos, esses aromas podem incomodar, e que com o tempo em garrafa eles se suavizam e abrem espaço para chocolate e cereja. Os vinhos de Carménère pura tendem a frutas vermelhas, como framboesa, segundo a Wine Folly; a maioria dos chilenos, porém, leva cerca de 15% de outra uva, como Cabernet Sauvignon, Merlot ou Petit Verdot. Fora do Chile, a variedade aparece em pequena escala na Itália, na Austrália, nos Estados Unidos e no Brasil.
No catálogo do Bebidário também estão o Undurraga U Carménère e o Emiliana Adobe Reserva Carmenere.
Fontes: Concha y Toro (13/11/2020), Wine Folly (07/03/2017).